Pode ser que o tempo passe, como em qualquer primavera

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Foto: Vivian Soares

É complicado acordar em termos simples. Temos gosto pelo complexo, pelo intrincado, pelo xadrez dos quebra-cabeças e contratos das relações humanas.

As linhas pequenas não me incomodam. O que me atormenta mesmo é a zona nebulosa de quando se prevê o destrato antes do fim.

O fim é o fim, oras. Como se decide antes como se quer terminar? Não faz sentido. Faz, pois temos falta de prática com os fins. Até para determinar a finalidade temos dificuldades. Imagine ditar o tempo do fim.

Não sabemos terminar civilizadamente relações de trabalho que, teoricamente, seriam mais impessoais. Imagine as que envolvem mais claramente os sentimentos.

Lembro da história de Alceu e Marília. Namoraram por cinco anos. O clássico. Famílias perguntando quando seria o noivado. Famílias enchendo o saco, pois bem, noivaram. Foram cinco anos. Eram um casal feliz. Viviam alegres, os pais aceitavam o rapaz, a sogra aceitava e convivia bem com a nora aos finais de semana.

Veio a primeira fase da vida adulta, faculdade, sonhos, profissão, pressão. Começaram então a ajudar em casa, chegaram as primeiras contas. Deitados na cama, aos domingos (era o único tempo livre para desfrutarem os prazeres da vida), começaram a devanear sobre a vida que queriam levar, as compras, a casa, os filhos e o carro.

Os pais batiam à porta, meio que a abrindo (tinha que ficar entreaberta), interrompendo o sonho.

Não, essa definitivamente não era a vida que eles queriam.

Decidiram, correram mais, trabalharam mais, viveram em função do sonho. Medo, pressão, sensações de perda e falta absoluta de controle. Estão juntos. Pode ser por um momento ou outro. Juntos.

Juntam as pedras e as pratas do acasalamento. Empulham o ouro. Embagulham um ao outro. O viço perdido da pele é osso. O tempo começa a fazer seu efeito.

Tentam entre tantos caminhos trazer com outros trejeitos os sonhos. Percalços. Ladrilhos. Ladeiras. Lanhos. Labaredas. Centelhas.

Decidem então não se casar. Decidem então só se enamorar. Decidem não morar. A casa de um será sempre onde estará o outro. Trabalhos. Distância causada pela falta de tempo. Distância por não se reconhecerem mais.

Um choro compulsivo ecoa na noite da casa da sogra. Dor. Dor infinda. Ninguém reconhece aquele som. Só uma pessoa então sabe o que virá daquele agouro.

Eram afeitos um ao outro de forma incompreensível. Eram francos. Abertos, partilharam sonos, sonhos e devaneios. No final, não sobrou quase nada.

Mas era um dia novo todo dia, e seguiram em frente. Casados ou não. Juntos. Justos. Afeitos. Afetados pelo amor que sentiam um pelo outro e que os fazia compreender um ao outro.

Faziam sentido um para o outro. Isso bastava, mesmo com a dificuldade do dia a dia.

Sentiam então que o dia seguinte sempre terá um jeito diferente.

Pode ser que passe o tempo deles, como em qualquer inverno, outono ou primavera, mas sabem que em outros tempos verão.

 

Texto originalmente publicado no blog da Galeria do Rock, em 02/12/2013 (link).
Revisão: Kiel Pimenta

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