Dia primeiro de ano novo

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Dia primeiro de ano novo

Fazia muito tempo que eu não encontrava as coisas fechadas em São Paulo, mas deveras encontrei e, para meu desespero, não foram poucas.

Era dia primeiro, ano novo, essa divindade que aparentemente nos conclama a confraternizar e abraçar a todos e iniciar mais um ciclo.

Saindo então da casa materna, consegui uma proeza: peguei um ônibus logo na segunda chance, pois a primeira tinha sido um táxi do qual estava desembarcando outra pessoa. Precisava eu sair de Perdizes para a Augusta cuidar de gato. Gato, esse ser independente, mas que tem que saber que você está ali, sentir o seu cheiro, e que se incomoda, e muito, quando não se está lá, deixa pelos, invade armários, pede água corrente, mia e ainda por cima tem um design melhor que os cães, dizem os entendidos.

Nesse caminho, pude ver aquilo que poucas pessoas podem aproveitar: uma São Paulo de ônibus e tranquila. Foi como se eu fosse um ser único, dei bom-dia e feliz ano novo para o motorista e para o trocador (com os dois fones no ouvido). Estava feliz, ônibus dia primeiro! Nessa cidade? Na minha cidade? Que loteria, o caralho! Eu estava solto e feliz no dia primeiro!

Desci, então, em frente ao Conjunto Nacional, onde um homem tocava choro com sua flauta e um som mecânico de regional o acompanhava. Era ano novo, dei-lhe dois reais. Sorriu, ou soprou para alcançar a nota, mas fui feliz. Novo momento.

Atravessei a Paulista vazia, umas cinco pessoas ao meu lado, eram treze horas e trinta e sete minutos, estava cravado o horário ali no relógio da avenida. Não me esqueço. Atravessei pra outro mundo.

Aquelas horas ficaram como que escarificadas na pele e o que está presente agora também.

Fui descendo a Augusta em direção ao centro. Passeando pelas calçadas acidentadas, pelos palhaços dormindo descalços debaixo da marquise e com o tênis debaixo das cabeças. Travesseiro preciso. E, como diria aquele baiano, tudo parece construção e já é ruína. Desci então, solitário, três quadras. Não podia comer pizza, nem pipoca, descobri ribanceira abaixo que estava com fome e só comeria bem naquela casa, era o alimento de que precisava.

Minha primeira pergunta como mau cuidador de gatos e casas era: quando passa e a que hora passa o lixeiro? Pra não pagar de bobo, fui vendo a rua e se havia lixo nos postes, pois a minha orientação é a de que ainda haveria.

Então encontrei três sacos de lixo perto do prédio, ao lado do poste. Sacos azuis, com o nó bem dado. E encontrei um quarto saco aberto, rasgado. E ao lado dele um homem tirando de um pedaço de pizza coisas meio acinzentadas do queijo.

Passei rápido. Louco. Apressei o passo. Nada daquilo poderia me alcançar, eu estava rápido, intrépido, ligeiro, fagueiro, estava leve. E fui leviano, passei por aquela situação e não pude oferecer-lhe nada.

Talvez esse seja o medo que me faz suar todo dia de manhã ao pisar numa terra insegura, talvez seja pensar no alimento de que preciso.

O caminho preciso do ano novo foi esse. Tomar a consciência do próximo, mesmo que não eu tivesse a atitude humilde de oferecer ao outro um alento ou um acalanto.

Ao menos agora sei o caminho que não devo seguir, o da indiferença.

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