PARECE QUE NÃO SABEMOS. MAS TODOS SENTIMOS, AINDA.

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Ao andar por aí nas ruas, ônibus, viadutos, metrô e avenidas vejo uma cidade a se violentar. Muita gente ocupando o mesmo espaço procurando uma só coisa, a luz de um sol quente num dia de inverno, mas todos ficam voltados ao escuro da luz fria da própria casa.

 

Nessa cidade, quando está quente, fica insuportável dentro de qualquer lugar sem refrigeração e nem adianta ir ao solar ou piscina dos prédios, que estará mais quente e terá muita gente, uma hora ou outra. Os parques são poucos, as áreas verdes que nos refrescariam são minúsculas, são pra poucos, ou a sensação que elas nos proporcionariam são para poucos. A sensação de frescor é quando estamos no ar completamente condicionado de escritórios e da cidadela. Então o frescor vem em lugares fechados, murados,  nunca abertos, nunca em um lugar onde há a possibilidade de troca profunda com algo além de si. Um contato mais amplo com a vida.

 

Acho que o tempo seco, a ressaca seca das fontes, a falta de horizontes e o que a gente pensa ser o pesar do dia seguinte, fazem a vida assim, desse jeito de se armar contra o que nos inflige dor e o que nos inflige a verdadeira dor é só trabalho meio escravo. Você não mais trabalha pela sua realização. Você trabalha pelo sonho inalcançável, trabalha pelo o que é real, trabalha pelo o que é possível a você, trabalha pra manter e é aquilo que você não quer.

 

Quem não faz isso tem um resguardo para poder viver, pois estamos num mundo em que a dor virou prazer. Ficar preso num cubículo, não ter a noção do tempo, sentir que se tem que dar mais para o que não será seu e que não te complementará mas que te dará uma sensação qualquer de recompensa material é o importante. Sentir dor no corpo é prêmio na alma e no sonho é sucesso.

 

Isso recrudesce a alma, nubla os sonhos, pois num meio intransigível de gente o medo desponta, a raiva aparece, o pesar cresce, o crime resplandece, a gentileza definha. O cuidado não é mais o primaz na relação com o outro, todo cuidado é pouco, mas só para não nos ferirmos. Para por um sonho maiúsculo de sucesso visível o ser humano falha, é tosco, volta a era do tacape e se cega mesmo pra dentro de si próprio. Sim, estamos encalacrados, voltados a um sentimento de busca que não se contenta. Não viveremos contentes se não procurarmos o que verdadeiramente nos contenta.

 

Não nos contenta ver alguém jogado na rua por lhe faltar um diálogo sincero. Não nos contenta não nos colocar numa perspectiva de alguém fora das atenções do mundo, mundo que julgamos que procurar algo no outro sem ter que escutar uma necessidade de dentro de cada um.

 

Somos todos barulhos, alaridos e sons, como essa cidade agora, onde ninguém dorme no momento em que o corpo pede descanso. Sempre tem alguém fazendo algum esforço pra poder viver e não por uma escolha de vida, clara e objetiva.

 

Somos seres perdidos na canção em que se busca encontrar alguém, mas não estamos dispostos a escutar o que o mundo nos tem a dar.

 

No fim, ser é isso, entregar aquilo que pedimos para ter e viver plenamente.

 

 

Revisão: Thomaz Paiva

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