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Jair

 

Um dia Jair andava na rua, com os pensamentos e sensações sobre o mundo girando dentro de sua cabeça: um colega despedido, outro promovido, problemas na vida conjugal de um, problemas na família do outro, o time que era retranqueiro, a mãe, e seus problemas.

No caminho passou pela drogaria, pela banca, pelo mercado, não lembrou de comprar nada do que tinha que comprar. Ao se sentar no sofá de casa logo ouviu a primeira reclamação da mãe: não trouxera o pão e o remédio para a azia dela. Na verdade ele lembrou, só queria um descanso dessas coisas da vida e respirar. Respirar para Jair era fundamental; um fluxo profundo e contínuo de ar para dentro do corpo era mais necessário que a sua cerveja de sexta com os amigos.

Como não iria deixar a mãe com azia e não iria dormir de barriga vazia, foi-se ele comprar o pão e ir à farmácia. Como pressentia uma noite longa, resolveu também comprar cigarros.

Foi à drogaria e achou engraçado, em meio a tantos anúncios, uma placa dizendo-lhe para sorrir porque estava sendo filmado se o atendente, mal-humorado, não lhe era gentil e era filmado o tempo inteiro. Pois bem, comprou o remédio da mãe e foi à padaria.

Fez a caminhada da padaria para casa tranquilo. Entregou o remédio para a mãe. Fez seu pão. Viu o jogo de futebol na televisão, reclamou do juiz, comentou com a mãe sobre seu dia e foi dormir.

Antes, porém, lembrou-se de seu antigo álbum de fotografias. Pegou-o no alto da estante, tirou a poeira com um sopro bem forte e começou a ver sua infância. Viu seu tio acompanhando-o de longe enquanto andava de velocípede no quintal da casa do avô.

Seus pensamentos tinham se tornado uma lembrança. Um momento único ao qual ele sempre voltava ao se sentir desorientado e ele reorientava as memórias para reconstruir o caráter de sua vida.

Lembrou que naquela tarde havia tombado ao fazer a curva em alta velocidade, e seu tio, então de prontidão, o socorrera, colocando-o no colo.

Jair depois pôde dormir em paz, com a respiração tranquila. Além de seu tio, sabia que o que trazia dentro de si o protegia também.

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