Vigilância

 

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A cidade toda te vigia de alguma forma. Câmeras, seguranças, policiais, pessoas, radares, buracos de fechadura, janelas, redes sociais, vizinhos, inquilinos. A cidade toda de alguma forma sabe de você, mas o que você sabe dela? O que você lembra do momento em que foi filmado, visto, achado, procurado?

Qual era a pressa, a presa, a prosa, o prostíbulo, o prazer, o erro, o destino que levava a ser flagrado naquele momento? Que memória presa na raiz do seu pé você não consegue desenterrar agora?

Por mais que queiramos ressuscitar o passado, sempre o transformaremos de várias formas. Há muitas opções e maneiras inversas de contarmos muitas vezes a mesma história para nós mesmos.

O registro por foto, filme ou qualquer outro tipo de captação imagética não nos traz a memória exata do que ocorreu. Ela é uma mistura de verdades momentâneas que já ocorreram e outras que você sente no momento em que as revê.

Tenho medo de fotos por causa disso. Tenho medo de filmes caseiros por causa disso. Mas os tenho em conta quando tenho a coragem de deixá-los virem me assombrar.

Aonde quero chegar pensando assim? É que vemos mal o passado e já opacamente deslumbramos um futuro enevoado. Mal entendemos o que se passou e logo temos um novo momento acontecendo. Esse funcionamento nosso é bem injusto. É bem injusto com quem não consegue rapidamente se livrar da raiz que lhe fincava o pé num mesmo terreno sempre.

Fico pensando nesses momentos, em que a gente olha a multa daquela pisada mais forte no acelerador para chegar mais rápido, e a culpa do ato, a dor da lembrança é um momento único de solidão do ser humano.

Do que a gente se culpa na solidão? Muitas vezes nos olhamos deslocados. Deslocados de onde queríamos estar e nos perdemos, passamos então sinais, olhares, câmeras, semáforos, lençóis, senões, sereias, serenatas, serpentinas, razões e findamos ali, com a passagem de tudo pela memória e a questão do que poderíamos ter feito diferente.

Por isso tenho medo agora de quando penso em ver a minha foto de vinte anos atrás e pensar no que acreditava e no que eu realmente fiz para realizar o que sonhava.

Penso no caso do rapaz que foi atropelado na Vila Madalena enquanto voltava a pé pra casa, por quanto tempo aquele casal vai fingir que o sentimento não é de culpa e por quanto tempo a mãe e o pai olharão praquela foto do filho e encontrarão ali um sentimento de repouso.

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