De Filho-Pai Para Pai-Avô

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Eu te encontro e a palavra não sai. Você sabe o que eu anseio dizer, mas tua sabedoria lhe diz:

– Deixe-o chegar e dizer.

Eu te encontro e outras palavras fluem de maneira que de contexto em contexto saibas quem sou ou o que represento agora. Tua sabedoria nos diz:

– Te escuto e traga-me tuas novidades.

Eu me preocupo contigo, tua saúde, teus próximos passos, tuas dificuldades, as discussões, sobre o mundo e tudo o mais a ser ultrapassado nesse locus de ideias conformadas.

E eu desejo, ainda mesmo (parecendo jovem aos teus olhos caminhante antigo) errando, ser agraciado de tua hombridade como um irmão.

O brincalhão tempo, mais que a hierarquia de nossas funções sociais, nos impede de ver o mesmo momento do mesmo jeito. Contudo teus ensinamentos anteriores nos disseram a graça reside, não na diferença, mas na complementação do conteúdo, do momento, do prazer de desfrutar um ao outro se agradecendo.

Eu ainda te escuto por horas a fio dentro da minha cabeça juvenil quando ainda me davas conselhos. Isso não dói mais, só serve de aprendizado agora.

Eu ainda me basto e viro as páginas com raiva dos livros de matemática que não me explicastes. E depois de tanto tempo eu ainda não consigo entender matemática. Consigo entender tudo o mais da vida que você me propiciou absorver e fustigou para que o mistério das coisas existisse (o bem maior da ignorância socrática paterna) eu fosse procurar. Ainda bem que você não era onipresente, onipotente, me ensinou que o macho é falho, me ensinou que o ser é falho, me ensinou que o ser é amor, me deu lições dignas de príncipes e principiantes, me deu empatia e força de líderes e seguidores, me deu humildade para saber que erro, que peco, e que pecado, côncavo e convexo são questões de estar e me deu afeto e compreensão quando precisei.

Eu depois de tantos erros e ingratidões me pergunto a razão desse seu gostar. Eu depois tanto tempo continuo ao tentar uma brecha em que o amigo me dirá após a filha-pergunta:

–  E você meu pai como está?

Desejarei escutar a rotina cheia de impropérios inaudíveis aos ouvidos dos netos, porque depois de tanto tempo de convivência sabemos meus irmãos e eu o peso de tua refinada ironia.

Nesse texto sou só eu pai, falando daquilo que falta eu dizer e que muitas vezes me vem a boca me envergonho e calo. Falando do olhar que não se toca durante uma caminhada, de aguentar a caminhada infinda até um ponto indeterminado do bairro para achar uma loja de quinquilharias. Falando da aquarela feita com a alegria que só mil lágrimas de felicidade vocacional podem dar a uma pessoa que buscou tanto um alívio para seu ser e o encontra, falo de bom grado do prazer de dizer:

– Obrigado Carlos, meu pai.

 

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