O cheiro fica na mão (o tempo é de amor)

 

 

luna e ludo

 

 

O cheiro fica na mão (o tempo é de amor)

o cheiro fica na mão. a sensação do macio no pelo sujo. as línguas continuamente ofegantes por trajeto agora curto. o tempo passa.

a vida não era assim. a vida foi assim e agora mais uma vez muda. a gente envelhece junto com eles e entendendo dessa maneira os ciclos dessa passagem percebo que o tempo passa para tudo. pras ruas que se esburacam, pros postes de luz que deterioram, pro lixo orgânico que se decompõe ao ar livre, pras pestes e vírus que se sobrepõe aos organismos mais frágeis, pras gruas que elevam desejos, pras demolições de sonhos e anseios. Casas velhas e assobradas que dão lugares a horríveis prédios tolos que por sua vez dado o solo passageiro cuja mudança tem estudo parco podem vir a ruir ou desmoronar, afundando sonhos de tantos.

a vida foi feita, desfeita e trouxe passeio outros.

a vida foi refeita, aceita em termos outros.

e eles estão lá, ansiosos, carentes e nós ausentes por conta de tantos nós que a vida dá.

o tapete de orelha, o olhar pedinte, as patas fortes, o pelo que eriça ao ter a área ameaçada, o latido doído de querer mais atenção e pra te proteger.

o tempo nos acalma, nos assenta, agora é mais fácil. o tempo passou. agora é mais fácil a saudade releva os defeitos. agora é mais sentido e mais interpretado, o tempo dá isso, o sentido interno de sentir o que acontece fora e dentro.

eram aqueles pelos, os olhares, o segurar o intrépido e a obediente. eram o salteador e a barraqueira, uma mão na frente segurando uma coleira com força e a outra leve como se nem fosse preciso segurar tanto ímpeto. tudo em outro momento.

os tempos enfim descamam o que antes não era possível ver tão abertamente.

é um tempo muito duro de divisões e certezas que não se conversam mas eles ainda amam.

é um tempo sem uma previsão distinta do depois e eles ainda amam e não se entrevam em si.

é um tempo muito em si e eles ainda amam o outro.

é um tempo visivelmente turbulento e eles ainda amam.

a língua suja de grama, a pata suja de barro e eles ainda amam.

o tempo com eles é de amor.

 

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