Devaneios 1

Até os vinte e pouco anos me gabava de ser ignorante o suficiente para poder dizer: – Ah a vida me ensina.

Veio um mundo muito intenso depois dessa frase. Vieram tanto espaços preenchidos quanto espaços vazios cuja existência me deu o tempo de reflexão.

O tempo pai dos milagres, a vida mãe de todas as razões discursivas, o destino mãe-pai de todas as curvas de meu caminho.

Não, com essas frases de efeitos não quero, ou melhor, não pretendo chegar em final algum, ainda é cedo pra pensar nisso, ainda é cedo pra se preencher de qualquer verdade por mais simples que pareça. Ainda não tenho idade de fim. Ainda não tenho idade de fim se busco na vida em si a finalidade, pras horas, pro tentar entender, compreender e de lá após muita análise de fatos, sínteses, antíteses e teses, não necessariamente nesta mesma ordem, encontrar algum sentido perdido entre, ação, desejo e motivo.

Podem vir todos os discursos de resiliência, de aceitação, de abnegação, de luta, de luas, de violões, de violência, arroubos, banditismo justificado e injustificado, de poesia jogada fora pela dureza insípida de discursos, que eu hoje percebo, com os olhos de agora (não das expectativas passadas e futuras que convergem em mim) desse todo, o tempo é outro, a gente individual que ainda não percebeu. A gente que ainda é incapaz não se capacitou, a gente que ainda é mordaz o doce na boca não salivou. Ao fim de todo processo atual resta-nos ver que por mais alto que sejam os prédios, que mais longe se vá para se perder a vista no mar, no rio, na imensidão das terras, ainda não temos, apesar de toda a bagagem, horizonte, desconhecemos que a melhor invenção não foi o espelho mas o poder compartilhar o espelho com alguém para que pudéssemos naquele momento sabermos um ao outro em imagem refletidas.

Hoje quando se olha no espelho nem o narciso das águas dos seus simulacros de verdade se vê, ele apenas observa seus ecos, como se todo o mito da caverna fosse, não sombra e imagem refletida pra dentro, e sim como se fosse apenas som que ecoa de dentro pra fora e reverbera no peito inapto a entender que há um mundo fora de si.

O cansaço da labuta, das questões entrópicas e distópicas brincando nas séries representantes deste vazio simulacro te distorcem da realidade enquanto uma outra voz é incapaz de te guiar.

Não, não há apelos, não compaixão, não há refigurar-se por se enternecer por si espelhado em outra figura, tudo é único e diferente, o seu todo afora é um sol que brilha egoicamente. Sombra de passado do antes e do agora.

O você é uma sombra. O pronome VOCÊ é uma SOMBRA. O nomear o outro e entendê-lo é uma afronta, essa necessidade do outro caber dentro de si não cabe mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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