Oito Poemas para São Paulo

Oito poemas para São Paulo

I

Nunca mais tinha andado sozinho

Por aqui e por mim

A cidade nunca me reconheceu

E eu ao me olhar no espelho não tenho o saber que o aparato branco me dá

Eu não entendo por meio dos meus desejos

as inúmeras mudanças que me ocorreram com o florescimento branco das pequenas trincheiras que o sol, a sombra, o orvalho matinal das noites insones me deram.

E saber ficar sozinho é uma lição dos haveres da vida

Vou calmo caminho meu caminho de grandes vias velhas por onde escorre tanto tempo de vidas

Eu sou mais um que oxigena e morre dentro deste corpo cujas estruturas desmoronam e se reconstroem

Eu estou em mim o tempo todo e não me entendo como funciono

Eu não consigo uma distância com a qual eu consiga um diálogo terno e cheio de reflexões

Eu só consigo me deparar com as prateadas próteses e o cenho franzido mesmo quando eu estou relaxado

II

Não vou ao MASP mas passo na rua das rosas e suas mansões demolidas

Não vou revisitar minha arte e nas artérias curtas a pressão aumenta e um delay constante desfaz a irrigação criativa necessária

Meu coração não dá conta do que sou

Meu conhecimento dos anos não geraram a habilidade precisa para esse momento.

III

Há acampamentos de fome que são sentimentos sem teto

Há pequenos pontos verdes nas regiões centrais

Mas caminhando percebo como tudo isso ainda é muito espaçado

IV

Lembro quando cheguei, sangue novo, e o meu pai me ensinou a andar de metro e a alegria de poder ter o próprio bilhete em mãos para decidir para onde ir

Um via subterrânea que não te permite olhar a paisagem, só olhar pro outro ou fechar-se e saber o que há dentro.

O peito contra o queixo acaba recrudescendo a gente

Acho que deve ser as gotas secas de suor que vão empedrando a gente. Quem não tem empedra por não se molhar de trabalho acertadamente.

VI

Um aniversário

Uns amigos

Umas conversas bobas que se encontram nas entradas do que nos é mais caro e profundo

Um rio largo e contíguo

Meus peixes e pixels chegam até aos que eu amo fraternalmente

E se não chegarem ali permanece o sentido do sentimento de amor.

VII

Agora a volta

Aquele vulto caminhou nesse lugar

Eu tenho a certeza de recaminhar sobre minhas sombras soltas daquele asfalto

Recaminhou sobre mim todo o meu arcabouços de mim

Que nem sempre soube amar

Ou dar continuidade ao meu bem fazer

VIII

Ontem vim

Agora volto

Nem menos biltre ou incólume do que antes

Nada mais me pertence e não pertenço a lugar nenhum

Tenho meios e modos discutíveis

Discursos poucos e não críveis

Ontem foi outro dia

E amanhã já é outro menos direto e menos

Todo dia menos, até ser diminuto na atenção ao cão ao deus ao pelo do gato a pele do sapo ao calor do fogo amigo

Ao pavor do eu antigo

Volto ao mesmo lugar, mas não volto o mesmo nem no mesmo tempo.

Ter asas diminuem as lonjuras.

Tiago Felipe Viegas Carneiro 11/08/2019

Para Saulo, Victor, Viviane, Zavala, Bisdré, Juliana

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